quinta-feira, 23 de abril de 2015

Análise poética em Olavo Bilac – Língua Portuguesa 

Andressa Paradiso
Caroline Desirée Veiga

RESUMO
Este trabalho visa apresentar um breve histórico do que foi o Parnasianismo no Brasil, tendo como principal representante desse estilo Olavo Bilac. Neste artigo será analisada a obra poética de Olavo Bilac, Língua Portuguesa.

Palavras-chave: Parnasianismo, análise literária, Olavo Bilac.


INTRODUÇÃO
O tema deste trabalho está direcionado à Literatura Brasileira: Poesia. O presente trabalho relaciona-se a uma breve apresentação do movimento parnasiano que surgiu na França com a publicação de antologias intituladas “Parnaso Contemporâneo” e sua chegada ao Brasil tendo como principal nome, Olavo Bilac. 

O preciosismo verbal – característica do estilo parnasiano marca o movimento representado, no Brasil, por Olavo Bilac. As características que serão apresentadas estão presentes no poema Língua Portuguesa, na qual faz uma abordagem sobre o histórico do nosso idioma.




1. PARNASIANISMO
O Parnasianismo é uma oposição ao romantismo, porque volta-se a busca da forma perfeita.
O movimento faz parte das Escolas Realistas, de origem francesa, que surgiu com a publicação de antologias intituladas Parnaso Contemporâneo, onde os poemas representavam uma nova forma de escrever em oposição às características do estilo romântico (subjetividade, idealização, emotividade, etc.).
A estética parnasiana centrou-se no ideal da “arte pela arte”. Os parnasianos tiveram como referência a cultura Greco-romana da Antiguidade. A origem da palavra Parnasianismo está associada ao Parnaso grego,segundo a lenda um monte da Fócida,na Grécia central, consagrado a Apolo e às musas. A escola do nome já comprova o interesse dos parnasianos pela tradição clássica. Acreditavam que, apoiando-se nos modelos clássicos, estariam combatendo os exageros de emoção e fantasia do Romantismo, e ao mesmo tempo tendo o equilíbrio que desejavam. Eles buscavam recuperar os princípios da arte clássica (valorização da estética, busca da perfeição, linguagem rebuscada e culta, preferência pelo soneto, etc.).


1.1 PARNASIANISMO NO BRASIL

As ideias parnasianas já vinham sido difundidas no Brasil desde 1870, no final dessa década houve uma polêmica no jornal Diário do Rio de Janeiro onde de um lado se reuniram os adeptos ao Romantismo e de outro dos adeptos do Realismo e do Parnasianismo. E isto ficou conhecido como Batalha do Parnaso se divulgou as ideias do Realismo e do Parnasianismo nos meios artísticos e intelectuais do país.
No Brasil, o Parnasianismo teve início em 1882 com a publicação do livro Fanfarras, de Teófilo Dias. O livro constitui nossa 1ª manifestação poética parnasiana.
Apesar da característica acadêmica e pela formalidade do movimento, é válido ressaltar que nem sempre os poetas parnasianos brasileiros seguiram com total fidelidade os cânones do estilo. Olavo Bilac, por exemplo, produziu muitos poemas de sensibilidade romântica, mostrando lirismo amoroso e sensual em “Via Láctea” e “Sarças de Fogo”.
O traço mais característico da poética parnasiana é o culto da forma: a forma fixa representada pelos sonetos:

"O Parnasiano foi outra vítima da inteligência que construiu a prisão onde quis encerrar o poeta. Foi à prisão sem ar que morreu o Parnasianismo. Não há prisioneiro encarcerado, convicto, arrastando corrente, que não queira romper as cadeias, fugir, brandando um grito de liberdade... Esse grito foi o verso livre.”

 (Rubens Borba de Morais, modernista).



2. OLAVO BILAC
Olavo Brás dos Guimarães Bilac (1865-1918) nasceu no Rio de Janeiro, estudou medicina e direito, mas não concluiu nenhum dos cursos.
Foi defensor da instrução primária da educação física e do serviço militar obrigatório. Patriota escreveu o Hino à Bandeira e dedicou-se a temas de caráter histórico-nacionalista.
Sua primeira obra publicada foi Poesias (1888) onde o poeta já demonstrava estar incluso e identificado com as propostas do Parnasianismo, vez ou outra vemos em seus textos a valorização dos sentimentos que lembra o Romantismo.
Embora sua poesia nem sempre expresse uma visão profunda sobre o homem e sua condição, Bilac foi o mais jovem e o mais bem acabado poeta parnasiano brasileiro. Seus poemas, principalmente os sonetos, apresentam perfeita elaboração formal.

Seu volume de Poesias Infantis, encomendado pela Editora Francisco Alves, é uma coleção de 58 poemas metrificados falando sobre a natureza e a virtude:

"Era preciso achar assuntos simples, humanos, naturais, que, fugindo da banalidade, não fossem também fatigar o cérebro do pequenino leitor, exigindo dele uma reflexão demorada e profunda”.

(Olavo Bilac)

Pensamento do grande escritor Olavo Bilac quando, a pedido Editora Francisco Alves, escreveu, em 1895, o seu famoso livro Poesias Infantis, publicado em 1904 e 1929:

Ao Leitor

Quando a casa Alves & Cª me incumbiu de preparar este livro para uso das aulas de instrução primária, não deixei de pensar, com receios, nas dificuldades grandes do trabalho. Era preciso fazer qualquer coisa simples, acessível à inteligência das crianças; e quem vive a escrever, vencendo dificuldades de forma, fica viciado pelo hábito de fazer estilo. Como perder o escritor a feição que já adquiriu, e as suas complicadas construções de frase, e o seu arsenal de vocábulos peregrinos, para se colocar ao alcance da inteligência infantil?
Outro perigo: a possibilidade de cair no extremo oposto – fazendo um livro ingênuo demais, ou, o que seria pior, um livro, como tantos há por aí, falso, cheio de histórias maravilhosas e tolas que desenvolvem a credulidade das crianças, fazendo-as ter medo de coisas que não existem. Era preciso achar assuntos simples, humanos, naturais, que, fugindo da banalidade, não fossem também fatigar o cérebro do pequenino leitor, exigindo dele uma reflexão demorada e profunda.
Mas a dificuldade maior era realmente a da forma. Em certos livros de leitura que todos conhecemos os autores, querendo evitar o apuro do estilo, fazem períodos sem sintaxe e versos sem metrificação, uma poesia infantil conheço eu, longa, que não tem um só verso certo! Não é irrisório que, querendo educar o ouvido da criança, e dar-lhe o amor da harmonia e da cadência, se lhe deem justamente versos errados, que apenas são versos por que rimam, e rimam quase sempre erradamente?
Não sei se consegui vencer todas essas dificuldades. O livro aqui está. É um livro em que não há animais que falam, nem fadas que protegem ou perseguem crianças, nem as feiticeiras que entram pelos buracos das fechaduras; há aqui descrições da natureza, cenas de família, hinos ao trabalho, à fé, ao dever; alusões ligeiras à história da pátria, pequenos contos em que a bondade é louvada e premiada.
Quanto ao estilo do livro, que os competentes o julguem. Fiz o possível para não escrever de maneira que parecesse fútil demais aos artistas e complicada demais ás crianças.
Se a tentativa falhar, restar-me-há o consolo de ter feito um esforço digno. Quis das à literatura escolar do Brasil um livro que lhe faltava. (Olavo Bilac)

3.1 ALGUMAS OBRAS
Poesias (18888 – reuniam Panóplias, Via Láctea, Sarças de Fogo, Alma Inquieta, As Viagens, O Caçados de Esmeraldas)
Sagres (1889)
Poesias Infantis
Tarde (seu último livro – publicado postumamente em 1919)
Crônicas e Novelas (1894)
Critica e Fantasia (1904)
Ironia e Piedade (1916)
Conferências Literárias (1906)
O Tratado de metrificação (em colaboração com Guimarães Passos)
O dicionário de rimas (também em colaboração com Guimarães Passos)
A defesa nacional (discursos de atuação patriótica)
Últimas conferências e discursos (1924)
A Terra Fluminense
Contos Pátrios
Pátria Brasileira

Teatro Infantil

Análise Semântica do texto literário
O poema enfatiza a importância e a beleza da língua, ele faz uma comparação da língua como Uma flor do Lácio, inculta e bela, utilizando a metáfora para designar a língua portuguesa, que originou do latim – língua da civilização romana. Lácio: região da península itálica em que Roma se localiza e onde se falava o latim.
O termo “inculta” refere-se a língua portuguesa ter sido formada pelo latim vulgar usada pelos soldados,camponeses e camadas populares da região do Lácio.
No segundo verso mostra que na medida em que a língua portuguesa se expande (esplendor representa a grandeza, o brilho) o latim cai em desuso (sepultura representa a morte). No terceiro verso “ganga” significa uma substância inaproveitável de um minério, mostrando que a língua não foi lapidada na fala comparado às outras formadas a partir do latim. “Arrolo” que aparece no quarto verso significa acalento, canto para adormecer criança. “Procela” significa tempestade marítima.
 Bilac apresenta a forma como a língua foi trazida ao Brasil através do oceano por meio da longa viagem feita com a caravela e mostra as características das florestas antes da exploração do povo branco. Observamos isso na terceira estrofe do soneto através da expressão De virgens selvas e de oceano largo.
Na última estrofe, o poeta faz uma alusão a Camões, que consolidou a língua em “Os Lusíadas” (epopeia), que narra ações grandiosas. A história narra os feitos heroicos dos portugueses durante as  grandes navegações.
O autor aponta a relação subjetiva entre o idioma novo e faz uso da sinestesia, Bilac deixa mais claro seu amor pelo idioma (língua) quando faz o uso de vocativo “Amo-te”.


Quanto à métrica do poema

O poema Língua Portuguesa está estruturado em 14 versos decassílabos com 10 sílabas métricas cada um. No processo de escansão dos versos é possível verificar a ocorrência da crase e da elisão. Elisão e Sinalefa referem-se ao recurso estilístico de unir silabas. A elisão ocorre quando há modificação fonética decorrente do desaparecimento da vogal final átona diante da inicial vocálica da palavra seguinte.


1       2          3       4       5    6     7    8   9   10

“É/s- a-um / tem/po,- es/plen/dor / e/ se / pul/ TU / (ra)”

                    1          2          3       4       5         6        7        8       9      10
“A     /  mo -o /  teu /vi / ço - a /gres /te - e -o / teu  /  a    /RO / (ma)”



Possui 04 estrofes, agrupadas em 02 quartetos e 02 tercetos, podendo, portanto, ser classificado como um soneto, que é marcado por normas clássicas da pontuação e rima. As rimas do poema são interpoladas ou opostas, do ABBA. Quanto à acentuação tônica são graves, pois ocorrem sempre em palavras paroxítonas. Há a ocorrência de rimas ricas, pois a maioria pertence à classes gramaticais diferentes o que era comum na poesia de Olavo Bilac. 



INTERPRETAÇÃO E ANÁLISE POÉTICA EM OLAVO BILAC – “LÍNGUA PORTUGUESA”



Sabemos que o traço mais característico da poética parnasiana é a forma fixa representada pelos sonetos, que possuem métricas dos versos alexandrinos (12 sílabas poéticas) e decassílabos perfeitos: rima rara, rica e perfeita.
Analisaremos, então, o soneto abaixo:

Língua Portuguesa
                        Olavo Bilac

Última flor do lácio, inculta e bela
És, a um tempo, esplendor e sepultura
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela

Amo-te assim, desconhecida e obscura
Tuba de alto clangor, lira singela
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo
Amo-te, ó rude e doloroso idioma

Em que da voz materna ouvi: "meu filho
E em que camões chorou, no exílio amargo
O gênio sem ventura e o amor sem brilho




O poema enfatiza a importância e a beleza da língua, ele faz uma comparação da língua como Uma flor do Lácio, inculta e bela, utilizando a metáfora para designar a língua portuguesa, que originou do latim – língua da civilização romana. Lácio: região da península itálica em que Roma se localiza e onde se falava o latim.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente artigo, realizado durante a disciplina de Literatura Brasileira: Poesia, tem por preocupação contribuir para que se conheça melhor o movimento Parnasiano no Brasil e um dos  principais nomes desse estilo – Olavo Bilac.
Através deste trabalho nos certificamos que o ser humano, ao longo da história, rompe com aquilo que considera ultrapassado e propõe algo “novo” revestido por uma linguagem diferente.
O parnasianismo representa, na poesia, uma oposição ao romantismo (representa um retorno ao clássico – objetividade nos temas abordados, impessoalidade, busca da rima mais rica, preferência pelo soneto, valorização da metrificação, mitologia revalorizada, linguagem rebuscada e culta, etc.).
É importante ressaltar que mesmo que Olavo Bilac tenha pertencido ao movimento Parnasiano, o autor não seguiu à risca essa poética excessivamente formalista. Em um texto ou outro podemos observar certa valorização dos sentimentos, traços de sensualidade e patriotismo.

A escolha do poema Língua Portuguesa, de Olavo Bilac, foi justamente para mostrar a abordagem que o autor faz sobre o histórico da língua portuguesa, utilizando recursos que indicam a rusticidade e beleza em seus versos. 



Referências
MOISÉS, Massaud. História da Literatura Brasileira: Romantismo, Realismo
São Paulo: Cultrix: Ed, da Universidade de São Paulo, 1984
CEREJA Roberto William; MAGALHÃES Cochar Thereza. Literatura Brasileira: ensino médio 2.ed reform São Paulo: Atual,2000

FARACO, Carlos Emilio; MOURA, Francisco Marto de. Português, Projetos. 1ªedição. Volume único.São Paulo:Ática,2009


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